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23.4.14

hey mom.



Olá mãe,
Estás bem aí onde estás ? É a primeira vez que tenho coragem de te escrever... As palavras 
ficam presas onde as lágrimas as substituem. Está a fazer um mês que me deixaste, e ainda nada parece real. Pouco tempo passei em casa... Sabes ? Parte de mim ainda pensa que um destes dias, vou chegar a casa e vais lá estar tu, sentada ao computador prestes a reclamar comigo por alguma coisa... É triste, mas é assim que me lembro. 
 Lembraste daquela manhã ? Não foste trabalhar... Não achei estranho, era algo que acontecia várias vezes. Nem me preocupei, muitas vezes faltavas sem me dar razão aparente. Mal eu imaginava que ia ser a nossa última manhã...
Levantei-me já chateada contigo por não me teres ido acordar, algo que me irritava profundamente fazeres nos dias em que não trabalhavas. Discutimos mais um pouco depois pelo papel da visita de estudo e saí para a escola ainda mais irritada e de mau humor contigo do que já era normal.
 Fui para as aulas, e voltei sem vontade de voltar, sabia que estavas lá e que das duas uma : ou não falávamos o dia inteiro, ou discutíamos, era certo. 
 Fiz o meu dia normal sem dar a mínima importância ao facto de ali estares, como nunca dava. Se eu soubesse... 
Passamos a tarde sem falar, algo normal... Jantei e fui alisar o cabelo. Lembro-me que me chamaste à sala e eu meio rabugenta e a reclamar entre dentes fui ver o que querias, e afinal era apenas tu a chamar-me para ver um actor que tanto gostava que tinha aparecido na novela. Respondi-te mais uma vez mal dizendo 'oh está bem' e virei as costas sem sequer me importar se tinhas ficado magoada ou não com essa resposta. Acabei de alisar o cabelo, fui despedir-me do pai e por pouco não me esqueci de me despedir também de ti. Fui até ti, disse-te ate amanhã, deixei que me desses dois beijinhos e na minha vez de tos dar apenas encostei a cara. Burra. Para mim aquele não era um dia diferente, tudo o que tinha feito, para mim, no dia a seguir já nem me lembrava, e todos os dias se ia repetir. Fui-me deitar sem sequer me passar pela cabeça que algo poderia estar para acontecer.
 Lembrei-me dessa manhã olhar para o telemóvel, ver a data e dizer para mim própria 'ah, hoje é dia 25, não tem nenhum significado, se estiver para acontecer alguma coisa é só amanhã, dia 26'. Dito e feito. Lembro-me de me levantar a correr mas ainda meio a dormir e sem ver muito bem nada à minha frente. Olho para o relógio do telemóvel e vi as horas passarem das 23h59 para a 00h00. Aí estava, prestes a começar a pior noite e o pior dia da minha vida. 
 A partir daí vêm uma série de acontecimentos, lágrimas e gritos que nunca sairão da minha cabeça. 
 Passou um mês, e não sei se é de pouco estar em casa, se é de estar afastada de tudo onde sempre estiveste mas ainda não acredito em nada do que aconteceu. Para mim tu estás prestes a chegar a casa, um destes dias...
Passa-se um mês e o meu coração todos os dias pára um pouco... Uns perguntam-me por ti, outros dizem 'é a vida', outros 'acontece', outros inocentes dizem que ainda lá estás, ou que tenho que te dizer isto ou aquilo, ou simplesmente oiço o teu nome e parece que um aperto enorme no coração toma conta de mim. 
 Parte de mim acho que nunca se vai conformar... Arrependo-me de tudo, sabes ? Dizem que nunca acontece nada do que pedimos, mas se pedirmos muito acontece, não é? Pelos vistos é mesmo, antes não fosse... Falamos demasiado da boca para fora e por vezes arrepende-mo-nos. 
 Eu sei que depois de tudo, muito provavelmente se voltasse atrás voltava a fazer tudo de novo, mas sabes... arrependo-me.
 Não vou ser hipócrita e falsa e dizer que no fundo sempre soube que te amei e sempre soube que me amavas, porque é mentira. Não, nunca soube. E chegou o teu último dia sem eu saber. Muita coisa foi dita, muita coisa foi ouvida e muita coisa foi esquecida e ignorada. Irónico como estando longe por vezes penso 'ah a minha mãe hoje ainda não me ligou, que estranho', ainda penso 'quando chegar tenho que mostrar à minha mãe'.
 Talvez pudesse ter evitado isto, mas agora infelizmente não há como voltar atrás. 
 Fazes-me mais falta do que algum dia pensei que fizesses, admito... E lamento, lamento tudo.
 Já não consigo continuar... Não passa um dia que não pense em tudo, que não relembre tudo e não fique mal disposta. 
 Espero que um dia me consigas perdoar, porque eu nunca me conseguirei perdoar a mim própria.
 Até um dia, Mãe.

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